Rodolfo Viana

27 Fevereiro 2009

Algumas metáforas

Arquivado em: Ensaios — Rodolfo Viana @ 10:32 pm
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[...] a época atual é estigmatizada exclusivamente pelo lead e pelo hermetismo. O jornalismo literário, por sua narrativa, torna possível sustentar a idéia da necessidade de aprofundamento nos textos noticiosos e… e o quê, mesmo?

Descubra aqui, neste meu primeiro artigo acadêmico apresentado no III Intercom Júnior, durante o XXX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, de 29 de agosto a 2 de setembro de 2007, em Santos, SP.

(Não se engane, estimado leitor. O fato de o trabalho ter sido escolhido por uma banca de doutores e apresentado nesse ou naquele congresso não lhe confere qualidade. Nas mal-traçadas linhas do artigo, o autor demonstra inaptidão à escrita formal, imaturidade na análise de dados e, acima de tudo, mau gosto na escolha das cores utilizadas nos gráficos.)

Quantas Hello Kitty valem um Bono Vox?

Arquivado em: Reportagens — Rodolfo Viana @ 4:08 pm
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Dissidência nenhuma há de abalar o sonho
de Bienal da confraria dos papéis de carta.

A gaúcha Luciana aperta o passo nos últimos 10 metros que separam a portaria do condomínio e o salão de festas. Hoje é o grande dia e ela está atrasada. Depois de 2h40 de ônibus de Santa Maria a Porto Alegre e de mais 1h30 até o Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, o avião ficou taxiando por outros 40 minutos, o que serviu apenas para aumentar a ansiedade da administradora. Aquela seria sua primeira vez. Para não fazer feio, arrasta consigo uma única mala que, apesar de visivelmente pesada, não contém sequer uma peça de roupa. A bagagem é composta exclusivamente por papéis de carta.

São aproximadamente mil itens – todos repetidos – que a especialista em finanças traz ao tradicional encontro semestral de colecionadores de papéis de carta. Luciana debuta na décima sexta edição do evento e, assim como ela, outras 25 mulheres estão ali com os mesmos objetivos: comprar, vender, trocar e apreciar folhas com inscrições carinhosas e estampas que inevitavelmente tiram daqueles lábios femininos expressões como “ai, que coisa mais liiiiiinda!”, ou então “olha, que desenho superfooooofo!”.

Quando Luciana chega, as mesas já estão postas, porém os salgadinhos e refrigerantes enfileiram-se noutro canto, numa bancada à parte, como se rejeitados pelas mulheres que ocupam o salão de um prédio de classe média-alta no Itaim Bibi. Sobre as mesas, empilham-se pastas abarrotadas de envelopes, cromos e folhas de variados tamanhos, desde aqueles com área de 2 centímetros quadrados a A4. Também há algumas calculadoras e listas. Com exceção de uma senhora com traços orientais que não mais se encanta por aquele sem-fim de delicadeza e fofura, as mulheres zanzam de mesa em mesa com avidez, tal qual um carrossel ligeiro e bem orquestrado. Aquele rodízio daria inveja aos marronzinhos da CET.

Luciana junta-se a um grupo de três mulheres e logo desfaz sua mala. Assim, sem cerimônia, a magia está feita: a gaúcha tem nas mãos o Santo Graal, a caixa de Pandora ou algo que valha o brilho que dos seis olhos alheios emana.

Luciana Ceccim Morales acumula mais de 20 mil itens, descontados aqueles repetidos que trouxe consigo ao encontro. Sua paixão começou aos 6 anos, em Santa Maria, quando sua avó, dona de uma papelaria, lhe deu de presente folhas com gravuras de bonequinhas japonesas. Luciana guardou algumas delas e trocou os demais com colegas, o que colaborou para que completasse a primeira pasta – que, para os colecionadores com muitas peças e pouco tempo para contá-las uma a uma, é a unidade de medida apropriada, assim como o dracma troy é para um joalheiro inglês, sendo que uma pasta corresponde em média a 75 papéis. Hoje, Luciana tem um armário dedicado à coleção que, segundo avaliações dos irmãos quando querem provocá-la, vale um carro zero quilômetro. “Eles devem ter razão. Deve valer sim uns 20 mil reais.”

O valor é especulado. Luciana nunca quis vender sua maior riqueza, nem mesmo em tempos de quebradeira global e timidez na redução da taxa Selic. Inclusive, seu julgamento para o momento financeiro nebuloso é que há expansão macroeconônica para os neoliberais que apostam no livre comércio dos papéis de carta. “O mercado no Brasil é muito pequeno. São poucas as opções.” O nicho da administradora reside além-fronteiras: por mês, Luciana deixa até 400 dólares – aproximadamente 950 reais – em portais on-line do Japão e no Ebay, maior site de compra e venda do mundo. “Na internet, tem meninas que cobram até 30 reais a folha.”

- Gente, um minutinho, por favor – grita Flávia Romanha, organizadora do encontro, com os braços em riste para enfatizar o pedido verbal. Depois de conseguir – com certo custo – o silêncio no salão, faz o pronunciamento. – Uma empresa soube do nosso encontro e mandou um bloquinho de papéis para cada uma de nós.

As outras 25 colecionadoras vibram ao mesmo tempo, num frêmito que reverbera no pequeno salão inteiro, o que dá a impressão de que o local é a geral do estádio do Morumbi.

- A única coisa que a gente tem de fazer – continua Flávia, depois de contidos os ânimos – é escrever à companhia o que a gente achou dos papéis. Comentários, críticas, qualquer coisa, e enviar à empresa.

O mais disputado foi o bloco da Pucca. Mas nem só de Pucca, Hello Kitty, Mickey, anjos, ursinhos e outros animais felpudos vivem os ilustradores de papéis de carta. A imaginação vai longe e dá trabalho às caçadoras devido à imensa fauna. Flávia já capturou alguns menos comuns entre as aficionadas, como um do time de futebol americano Miami Dolphins, um da equipe de beisebol Florida Marlins e um do Sesame Street. Troca ou vende todos eles. Os preços variam de 80 centavos a 4 reais, dependendo da antiguidade, raridade, procedência e, claro, fofura do tema. Há ainda aqueles que não têm cotação devido à afinidade sentimental. “Eu tenho um papel de carta feito de papiro que uma vizinha me deu de presente. Ela comprou no Egito.”

Flávia é quem organiza o encontro semestral há oito anos. Graças às reuniões, em 2004, a bancária que tem MBA em Finanças chegou ao papel de carta de número 19 mil. Naquele ano, a RankBrasil, organização responsável pela homologação de recordes nacionais, enviou um representante para auditar sua coleção. Foi então que Flávia assumiu o posto de maior colecionadora de papéis de carta no país, posição mantida ainda hoje, com seus 29.921 itens. É dela grande parte dos mais de 104 mil itens de todas as outras 26 participantes do evento e, a cada encontro, Flávia sai com mais 100, 120 papéis novos.

Assim como um Tio Patinhas enciumado de sua moedinha da sorte, Flávia guarda o papel de carta de número 1. É um Hello Kitty, coleção Quem me quer. Presente do pai quando a menina de 10 anos observava todas as coleguinhas de escola fazendo trocas durante os intervalos de aula. Desde aquela primeira folha com a gravura de uma bonequinha e um arco-íris, ela desenvolveu o know-how do hobby: sabe, por exemplo, que os modelos nacionais são numerados em sua maioria, o que facilita a identificação do que ela já tem e do que ainda falta. Por isso, apesar de achar que “Hello Kitty é tuuuudo de bom”, a produção brasileira é sua favorita.

Os papéis brasileiros também agradam a Yuri Hasimoto. Ela é a mais senhora do grupo e está entediada. No alto de seus 42 anos, traz na cabeça alguns fios brancos e quase nenhum interesse pelos papéis que se esparramam sobre as mesas de maneira displicente. A nikkei de cerca de 1,50 metro não vagueia pelas mesas, não comemora os bloquinhos gratuitos, não batalha pelo modelo da Pucca e não futuca a mão nas pastas alheias em busca do Pateta perdido. Yuri se diz cansada de tudo isso. Trouxe o espólio de 200 itens – todos nacionais – para o encontro para se livrar de um por um. É raro abrir a boca, mas quando o faz, é para oferecer às colegas o que lhe restou de mais de 30 anos de coleção. Vende cada folha a 1 real, qualquer uma, desde aquela com balões coloridos na parte superior até a do urso caramelo com olhar pedinchão. Naquela manhã, Yuri fez 30 reais, montante suficiente para comprar o que deseja no momento: mais um CD de rock. Yuri quer se desfazer do seu xodó anterior por conta de um novo amor:

- U2.

Se por um lado Yuri quer botar um ponto final no hobby de uma vida e, assim, deixar o círculo de colecionadores, há quem deseje o oposto. E é no ensejo de aumentar a roda que uma mulher de cabelos curtos propõe a Flávia “uma Bienal de Papel de Cartas, nos moldes daquela outra, a do fim de 2008”. Se depender da empolgação das colecionadoras, não haverá vazios no sonhado evento, mas sim muitos sons, todos ao mesmo tempo, e algumas palavras mais arrastaaaaaadas. Vai ser uma fofura só.

Veja mais!

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14 Fevereiro 2009

Coleção prêt-à-porter Ritchtofen

Arquivado em: Reportagens — Rodolfo Viana @ 12:01 am
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A reportagem é antiga, mas tenho carinho por ela. Como estava à deriva no meu finado blog entremeados, reproduzo aqui, apenas para registro.

Naquela manhã de segunda-feira, de clima ameno de julho, o promotor Nadir de Campos Junior estava acompanhado de sua filha mais velha, Tainara, que tinha interesse em conhecer tanta gente famosa da televisão. Era incomum àquele homem da lei ter ao seu lado a filha enquanto realizava trabalhos do Ministério Público, geralmente burocráticos e sem muita atenção popular. Aquele caso, contudo, contava com um acompanhamento acirrado pela sociedade devido a sua atrocidade, e havia aberto as portas da grande mídia ao promotor. Tainara queria apenas desfrutar do sucesso do pai. Enquanto a menina se divertia no mundo do faz-de-conta da televisão, o pai amargava noites em claro, na ansiedade por aquele dia que, enfim, havia chegado.

Mesmo insone, Campos Junior não transparecia abatimento e mantinha um ritmo agitado. Não eram 9 horas ainda e o promotor já havia deixado a Rede Globo, onde fora entrevistado por Ana Maria Braga, e estava nos estúdios da Record sendo interpelado por Britto Junior e Ana Hickman. A pauta daquelas entrevistas estava em todos os jornais, revistas, telejornais e sites de notícia do Brasil: o início do julgamento de Suzane Louise von Ritchtofen e de Daniel e Cristian Cravinhos.

No ar, o promotor fez uma promessa: Suzane entraria no Fórum com roupa amarela, típica dos presidiários detentos que aguardam julgamento. Campos Junior acreditava que veria aquela jovem de 22 anos deixar as dependências do prédio, no último dia de peleja judicial, ainda nas mesmas roupas em tom amarelo. Trocaria de roupa apenas na penitenciária onde cumpriria pena. Assim como os irmãos Cravinhos, executores do plano arquitetado por Suzane, a menina bem nascida também seria vista pelos sete membros do júri, pelas oitenta pessoas contempladas a assistir o julgamento da platéia do tribunal, pelas três mil pessoas que aguardavam do lado de fora do Fórum e por toda a imprensa em trajes que remetem ao encarceramento, à culpa e à podridão da sociedade. Esta foi a promessa de Campos Junior, ao vivo, em rede nacional. A mensagem foi assistida pelos acusados.

Compromisso assumido diante das câmeras, o promotor, em certo momento da entrevista, é interrompido por um telefonema. Alertado de que Suzane estaria passando mal, Campos Junior encerra sua participação no programa e segue ao Fórum Criminal da Barra Funda, a 200 metros dali.

Campos Junior geralmente tem passos calmos e porte sereno, mas naquele instante correu ao segundo andar do prédio, onde ficam as celas reservadas aos réus que aguardam julgamento. Rodeada por paredes verdes, grades e uma banca de advogados, Suzane. Havia malas e mudas de roupa, providencialmente trazidas por aqueles homens em paletós que buscavam sua absolvição. Toda aquela gente dava uma proporção menor aos 24 metros quadrados de cárcere. Campos Junior, no meio daquele universo todo, reparou na sujeira que tomava todo o traje amarelo da menina. Pediu explicações.

Menina loira, de traços delicados e educação refinada, Suzane havia levado o dedo à garganta e provocado o vômito. Regurgitou na própria mão e espalhou pela roupa amarela de detento prestes a ser julgado. A escatologia buscava a distinção aos olhos do júri. Enquanto os irmãos Cravinhos entrariam na corte com as vestimentas acusatórias, o que implicaria culpabilidade em potencial, Suzane estaria à paisana, como se não estivesse ali acusada de ter orquestrado a morte dos pais.

“Comuniquei o fato aos meus colegas de acusação – doutor Roberto Tardelli e doutor Alberto Zacarias Toron – e nós três chegamos à conclusão de que deveríamos fazer com que os irmãos Cravinhos trocassem de roupa também”. No banco dos réus, os três estariam assim em posição linear, indistintos. Os irmãos Cravinhos, que também haviam visto o programa, ainda questionaram a possibilidade de se providenciar uma outra roupa amarela para Suzane. Queriam um julgamento justo. Para conseguir outro traje, porém, seria necessário adiar o início do julgamento e a acusação temia que essa estratégia da defesa funcionasse. Suzane conseguiu, enfim, trocar de roupa e vestir-se casualmente. Adentrou ao palco do plenário do júri num moletom azul, mas em nada se distinguia dos irmãos, que estavam em calça jeans e camiseta branca. Não havia o que os diferenciasse ali: nem roupa, nem culpa.

13 Fevereiro 2009

A primeira noite

Arquivado em: Contos — Rodolfo Viana @ 12:32 am
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cabeca

Era uma rua disforme. Primeiro, ladeira; do meio para o horizonte, subida. De onde eu estava, dava para ver um asfalto precário, crivado por toda a extensão, até onde alcançava a vista. Uns cinco quarteirões, se não me falha a memória. Do lado esquerdo, sobrados geminados eram um comércio de paredes uniformemente descascadas, pintadas em cores frias ou tons amarronzados. Havia mofo no concreto de algumas das construções. Todos os estabelecimentos fechados. Na calçada da direita, painéis deteriorados pendiam de cima das portas de alumínio das lojas. Anunciavam refrigerantes, cigarros e mulheres. Eram muitos e quase anuviavam a visão ao longe.

Parecia domingo. Dia morto. Não havia pessoa alguma na rua. Nem carro. Nem cachorro sarnento a revirar lixo. Nada. Exceto dois rapazes sem camisetas que assistiam a uma TV, sentados em um sofá colocado no meio do asfalto. Eles estavam de costas para mim e não pude ver seus rostos. A impressão que tive é que havia, além de mim, apenas aqueles seres no mundo todo. E que o mundo eram os sobrados toscos.

Na TV, as imagens eram em preto e branco. Transmitia-se ao vivo a vida de Benê. Ele chorava na tela. Berrava. Parecia clamar por alguém. Esganiçava-se todo. O desespero do malandro era palpável.

Eu só queria dormir e este sonho acossou-me madrugada adentro em 3 de janeiro de 2008. Foi uma noite insólita, de momentos ora letárgicos, ora concretos, vivos, reais. Na manhã seguinte, senti-me compelido a relatar a história de Benedito, o malandro que estridula e desesperadamente urrava na tela. Mas não foi fácil.

No princípio não era o verbo, mas sim sua ausência plena. Eu não sabia por onde começar. Benê foi-me, durante um tempo, um nome, um rosto em preto e branco e um urro. Nada mais. Não havia nas entrâncias de minhas memórias recentes e antigas qualquer vestígio do que poderiam vir a ser pegadas deste homem. Em suma, eu não tinha história. Tinha sim um carma, um demônio a exorcizar. Eu não era o único.

Sem enredo, frustrado, sentei-me no sofá e entreguei-me ao vício do café, remoendo o que poderia ser a história daquele sujeito.

No terceiro dia, insone e entorpecido de cafeína, sem rabiscar sequer uma linha, fui surpreendido pela campainha. Através do olho-mágico, vi um velhaco de cabeleira griséu e olheira vistosa. A pele morena contrastava com os olhos de brancura ímpar. Eu abri a porta de malgrado, com a secura ímplicita num “pois não”. Aquele senhor disse meu nome completo, como se me conhecesse bem, o que soou diferente. Mais estranho, porém, foi ouvi-lo revelar em tom grave que era Benê e perguntar “não me ouviu berrar seu nome da primeira vez?”

Um dia, quem sabe, passo do prefácio para o livro em si. Um dia…

12 Fevereiro 2009

Ali, lânguida

Arquivado em: Poemas — Rodolfo Viana @ 2:20 pm
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ali, lânguida,
ronrona um nada
para, enfim, se fazer muda.
na cama, jaz calada.

fita meu peito
feito besta mansa.
“deus, assim posso morrer”, sussurra
enquanto o coração quer,
enquanto o corpo descansa.

(mas deus não lhe dá ouvidos
- nem quando geme, nem quando urra.)

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