Rodolfo Viana

13 Fevereiro 2009

A primeira noite

Arquivado em: Contos — Rodolfo Viana @ 12:32 am
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cabeca

Era uma rua disforme. Primeiro, ladeira; do meio para o horizonte, subida. De onde eu estava, dava para ver um asfalto precário, crivado por toda a extensão, até onde alcançava a vista. Uns cinco quarteirões, se não me falha a memória. Do lado esquerdo, sobrados geminados eram um comércio de paredes uniformemente descascadas, pintadas em cores frias ou tons amarronzados. Havia mofo no concreto de algumas das construções. Todos os estabelecimentos fechados. Na calçada da direita, painéis deteriorados pendiam de cima das portas de alumínio das lojas. Anunciavam refrigerantes, cigarros e mulheres. Eram muitos e quase anuviavam a visão ao longe.

Parecia domingo. Dia morto. Não havia pessoa alguma na rua. Nem carro. Nem cachorro sarnento a revirar lixo. Nada. Exceto dois rapazes sem camisetas que assistiam a uma TV, sentados em um sofá colocado no meio do asfalto. Eles estavam de costas para mim e não pude ver seus rostos. A impressão que tive é que havia, além de mim, apenas aqueles seres no mundo todo. E que o mundo eram os sobrados toscos.

Na TV, as imagens eram em preto e branco. Transmitia-se ao vivo a vida de Benê. Ele chorava na tela. Berrava. Parecia clamar por alguém. Esganiçava-se todo. O desespero do malandro era palpável.

Eu só queria dormir e este sonho acossou-me madrugada adentro em 3 de janeiro de 2008. Foi uma noite insólita, de momentos ora letárgicos, ora concretos, vivos, reais. Na manhã seguinte, senti-me compelido a relatar a história de Benedito, o malandro que estridula e desesperadamente urrava na tela. Mas não foi fácil.

No princípio não era o verbo, mas sim sua ausência plena. Eu não sabia por onde começar. Benê foi-me, durante um tempo, um nome, um rosto em preto e branco e um urro. Nada mais. Não havia nas entrâncias de minhas memórias recentes e antigas qualquer vestígio do que poderiam vir a ser pegadas deste homem. Em suma, eu não tinha história. Tinha sim um carma, um demônio a exorcizar. Eu não era o único.

Sem enredo, frustrado, sentei-me no sofá e entreguei-me ao vício do café, remoendo o que poderia ser a história daquele sujeito.

No terceiro dia, insone e entorpecido de cafeína, sem rabiscar sequer uma linha, fui surpreendido pela campainha. Através do olho-mágico, vi um velhaco de cabeleira griséu e olheira vistosa. A pele morena contrastava com os olhos de brancura ímpar. Eu abri a porta de malgrado, com a secura ímplicita num “pois não”. Aquele senhor disse meu nome completo, como se me conhecesse bem, o que soou diferente. Mais estranho, porém, foi ouvi-lo revelar em tom grave que era Benê e perguntar “não me ouviu berrar seu nome da primeira vez?”

Um dia, quem sabe, passo do prefácio para o livro em si. Um dia…

8 Fevereiro 2009

De repente, ausente

Eu morri num domingo, 11 de agosto. Faustão exibia o Arquivo Confidencial da Carolina Dieckmann, mas não foi por isso que morri. Convenhamos que seria uma boa desculpa, mas juro, não foi por isso. Eu nem assistia à TV quando tudo aconteceu. Fazia uma tarde feia, sem vento e abafada – como são hediondas todas as tardes de domingo, não? – e eu estava deitado na cama, lendo qualquer coisa na Veja. É, eu lia a Veja, mas não foi por isso que morri. Eu não morreria ao ler a coluna do Diogo Mainardi, a menos que fosse de rir. Enfim, eu simplesmente estava ali e, de repente, já não estava mais. Assim, sem cerimônia.

Também sem muita cerimônia foi o velório. Meia dúzia de parentes desolados, minha mulher que chorava copiosamente, uma amante disfarçada de colega da redação, um senhor que parecia deslocado por ter entrado na sala errada, algumas flores, alguma renda, algum biscoito de maisena. No enterro, tudo errado: fui parar num jazigo na quadra 12 do Cemitério da Saudade, em Marília, a contragosto. Ressalto: gritaria meu desejo de ser cremado, evitando assim a ideia que me acompanhou a vida toda: parar vivo debaixo da terra. Na época, isso me causava agonia. Ah, se não gritaria! Gritaria sim, se tivesse traqueia e voz. E mudo, pensei “que se foda tudo isso”.

Numa noite de outubro, amarraram trabalho sobre meu jazigo. Uma vela amarela apoiada num pires lascado e a garrafa de cachaça denunciavam o serviço. Na manhã seguinte, o zelador encontrou a cana e guardou para si. Sei lá que fim levaram homem e bebida.

No meu epitáfio, ao lado de um retrato medonho em que forcejo um sorriso, ainda que apagado pelo tempo, lê-se “Rodolfo Orlando Viana. Um anjo que deixa o mundo para ficar ao lado de Deus”. Não foi a frase que eu escolhi durante uma bebedeira em que fiz minha mulher prometer que usaria “Um homem que deixou o mundo para acertar suas contas com Deus”. Minha opinião não vale porra alguma. Mas enfim, está lá, talhado. Podem checar.

22 Janeiro 2009

Uma morte valvulada

Arquivado em: Contos — Rodolfo Viana @ 10:50 pm
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Ele ouviu o próprio nome ser anunciado pelo locutor de voz aveludada. Ainda eram 5h30 e achou que se tratasse de um devaneio matinal, troça comum do torpor do sono findado antes do tempo, quando mesmo o sol há de se espreguiçar e ponderar se nasce ou se deixa estar. A voz que ecoava do valvulado, porém, ratificou a nota fúnebre.

- Para você, amigo ouvinte que acaba de ligar seu rádio, eu repito – disse o homem do lado de lá do aparelho, puxando todos os erres cabíveis. – José Carlos Madeira faleceu na noite de ontem. O corpo será velado às 8 horas, na sala 3 do Cemitério Municipal. O enterro está previsto para as 16 horas.

Estavam lá, flutuando nas ondas do rádio, porém cravados no cérebro do maldormido sujeito, nome e sobrenome. Por extenso, em letras de forma, caixa alta, negrito.

Nosso José Carlos Madeira franziu a testa diante da situação. Obviamente tratava-se de uma mórbida coincidência, decerto, e que o falecido era homônimo seu. Apenas isso. Mataria a curiosidade em saber quem era o sujeito se comparecesse ao velório.

Estava decidido. José Carlos Madeira iria prestar as últimas homenagens a José Carlos Madeira.

Tocaram a campainha uma vez. Nada. Na segunda, José apercebeu-se de que o chamavam e seguiu à porta. Parou o passo quando se deu conta de que estava nu. Dormira sem roupa alguma devido ao calor, motivo pelo qual passara a noite insone, e ainda não havia encontrado tempo para pensar em se vestir. Por essa razão José não abriu a porta e apenas colou meia cabeça no vidro para ver quem incomodava àquela hora.

Era a vizinha. Uma desvairada. Queria saber se estava morto. Ouvira no rádio…

Ela lá fora, ele aqui dentro. Ele a enxergava, mas ela se esforçava sem sucesso. Levava a mão espalmada à testa para ver se conseguia ver através dos vidros, e nada. Virou as costas e partiu com ar circunspecto na face.

- Louca – pensou José. – Eu aqui, abanando as mãos, e ela não me vê. Louca e cega.

Irrompeu o silêncio o telefone. Um som estrepitoso e agudo reverberou a casa toda. José, ainda meio sonolento, custou a chegar inteiro ao aparelho: tropeçou na banqueta, onde acertou a canela e, por isso, berrou um palavrão cuja altura parecia competir com o tocar do telefone. Ao alcançá-lo, ouviu e respondeu alôs até se cansar e mandar à merda o interlocutor – um colega de escritório que ouvira pelo rádio…

Pela primeira vez José cogitou ser ele próprio o morto. Sim, claro. Tudo fazia sentido: primeiro, a vizinha que não o avistara; agora, o colega não conseguiu ouvi-lo. E se morto estivesse, como poderia saber?

Definitivamente, iria ao velório. Queria ver se o corpo no caixão era o dele. Mas o horário indicado pelo empostado locutor ainda era apenas uma promessa. Havia tempo para uma soneca, se o sol deixasse. Mesmo que morto, José cochilaria mais uma horinha.

Às 8 horas em ponto, José dividia a entrada do velório com os familiares do falecido. Nenhum rosto conhecido, a princípio, o que tranquilizou o sujeito. Uma viúva debulhava-se em lágrimas, mas menos que a empregada da família. Esta sim era a personificação da dor. Parecia que perdera uma paixão. Dois filhos olhavam a bundinha de uma colega de trabalho do falecido. Fazia muito calor e ela usava uma saia de tamanho suspeito, o que atraiu a atenção dos rapazes. No outro canto da sala, um bicão fartava-se em biscoitos de maisena e reclamava do mormaço.

José abraçou a viúva com pesar fingido e deixou aquelas impressões e dramas a quem de fato pertenciam, ou seja, a seus protagonistas, à família. Rumou ao caixão e lá encontrou um sujeito que não era ele. O morto era outro.

No caminho de casa, José, o vivo, sentiu-se grato por estar vivo. Levantou as mãos aos céus, fechou os olhos e agradeceu ao Senhor. Como demonstrou sua fé justamente enquanto atravessava a avenida principal, foi atropelado por um carro-pipa.

No noticiário da tarde, o locutor com voz de mel deu duas notícias. A primeira era a respeito do abastecimento de água na zona norte que seria atrasado por duas horas devido a um acidente envolvendo o veículo que fazia o transporte àquela região de seca. A outro foi um mero déjà vu, praticamente.

12 Janeiro 2009

Um desejo confesso

Arquivado em: Contos — Rodolfo Viana @ 4:57 pm
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Ele sussurrava bobagens no ouvido dela e um arrepio tomava o corpo da menina de assalto. Ela ainda tinha 15 e, por isso, não se sabe se o gemido mudo foi mais pelas palavras do que pelo eventual toque dos lábios na pele entre uma indecência e uma jura. Ainda assim, lá se via o eriçar de pelos. Ela mantinha os olhos fechados para aguçar o som e seus efeitos. E ainda sem nada enxergar, murmurou um “para”.

- Para. Eu não posso.

Ela não podia, decerto. Mas queria. Ah, Deus, e como! Desejava com um certo ardor inédito e voraz a lhe consumir alma e carne, como fora, a Adão, o primeiro raiar de sol na gênese. Mas ela não devia.

- Não devemos. Por favor…

Ele não parou. Insistiria mais um pouco, como de costume – os lábios já íntimos daquele ouvido quente, como se ali sempre estivessem e ali devessem ficar. Desceu o indicador pelo pescoço da menina, até que sua mão contornasse…

- Para!

Ele parou. Afastou-se com lentidão, sua decepção em slow motion, e mirou os olhos ainda inebriados da menina e seus lábios inchados.

- Você não quer?

Ela queria, mas negou.

- Não.

Ele recuou. E sua face não negava: aquele era o mais infeliz dos homens. Se não do mundo todo, pelo menos da Igreja. O padre saiu do confessionário contrariado, com a batina amarrotada, e pesou o passo rumo à sacristia, onde permaneceu a fingir que arrumava alfaias litúrgicas.

Ainda dentro do confessionário, a menina chorou calada e sozinha.

25 Novembro 2008

São João

Arquivado em: Contos — Rodolfo Viana @ 5:33 pm
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Não fosse o som dos fogos a estourar e colorir de azul e vermelho o negro céu, ela teria ouvido quando ele murmurou “eu te amo”. Mas seus ouvidos atentavam-se à dissonância toda; nos olhos arregalados fulgurava o reflexo policromático da pirotecnia. Pois assim, não ouviu o som e tampouco viu os lábios bailarem na confissão apaixonada e vã. Ao cabo de tudo, ainda num redondo riso, a fascinada menina disse ao frustrado menino “deve ser lindo ver os fogos com quem se ama, né?”.

O rapazote mantinha os olhos no chão. Encarava o sapato, cabisbaixo como são os corações partidos. Respondeu um “é, deve ser” de malgrado. Teve tanto ódio daqueles fogos que, por reflexo, engoliu a paçoca numa mordida só. Engasgou. Debateu-se. Sufocou-se.

Antes de morrer, não disse coisa alguma. Apenas pigarreou, esperneou, cambaleou, roxeou, desfaleceu. A menina se apercebeu do óbito apenas quando a última luz brilhou no alto e o som se calou por completo.

Silêncio na noite de São João.

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