
Era uma rua disforme. Primeiro, ladeira; do meio para o horizonte, subida. De onde eu estava, dava para ver um asfalto precário, crivado por toda a extensão, até onde alcançava a vista. Uns cinco quarteirões, se não me falha a memória. Do lado esquerdo, sobrados geminados eram um comércio de paredes uniformemente descascadas, pintadas em cores frias ou tons amarronzados. Havia mofo no concreto de algumas das construções. Todos os estabelecimentos fechados. Na calçada da direita, painéis deteriorados pendiam de cima das portas de alumínio das lojas. Anunciavam refrigerantes, cigarros e mulheres. Eram muitos e quase anuviavam a visão ao longe.
Parecia domingo. Dia morto. Não havia pessoa alguma na rua. Nem carro. Nem cachorro sarnento a revirar lixo. Nada. Exceto dois rapazes sem camisetas que assistiam a uma TV, sentados em um sofá colocado no meio do asfalto. Eles estavam de costas para mim e não pude ver seus rostos. A impressão que tive é que havia, além de mim, apenas aqueles seres no mundo todo. E que o mundo eram os sobrados toscos.
Na TV, as imagens eram em preto e branco. Transmitia-se ao vivo a vida de Benê. Ele chorava na tela. Berrava. Parecia clamar por alguém. Esganiçava-se todo. O desespero do malandro era palpável.
Eu só queria dormir e este sonho acossou-me madrugada adentro em 3 de janeiro de 2008. Foi uma noite insólita, de momentos ora letárgicos, ora concretos, vivos, reais. Na manhã seguinte, senti-me compelido a relatar a história de Benedito, o malandro que estridula e desesperadamente urrava na tela. Mas não foi fácil.
No princípio não era o verbo, mas sim sua ausência plena. Eu não sabia por onde começar. Benê foi-me, durante um tempo, um nome, um rosto em preto e branco e um urro. Nada mais. Não havia nas entrâncias de minhas memórias recentes e antigas qualquer vestígio do que poderiam vir a ser pegadas deste homem. Em suma, eu não tinha história. Tinha sim um carma, um demônio a exorcizar. Eu não era o único.
Sem enredo, frustrado, sentei-me no sofá e entreguei-me ao vício do café, remoendo o que poderia ser a história daquele sujeito.
No terceiro dia, insone e entorpecido de cafeína, sem rabiscar sequer uma linha, fui surpreendido pela campainha. Através do olho-mágico, vi um velhaco de cabeleira griséu e olheira vistosa. A pele morena contrastava com os olhos de brancura ímpar. Eu abri a porta de malgrado, com a secura ímplicita num “pois não”. Aquele senhor disse meu nome completo, como se me conhecesse bem, o que soou diferente. Mais estranho, porém, foi ouvi-lo revelar em tom grave que era Benê e perguntar “não me ouviu berrar seu nome da primeira vez?”
Um dia, quem sabe, passo do prefácio para o livro em si. Um dia…